PrEP

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Julho de 2018, aeroporto de Schiphol. Me despeço de Amsterdam, cidade que sediou a XXII Conferência Internacional de Aids, em meio a reflexões acerca da importância do ativismo político e social no combate à epidemia da aids.

Já próxima da sala de embarque, me deparo com uma mulher, e, tão logo percebemos que ambas estávamos com a bolsinha da Conferência, iniciamos uma longa conversa, já que tínhamos tempo e disponibilidade.

Bruna (nome fictício), 24 anos, mulher trans, trabalhadora do sexo nas ruas do Rio de Janeiro, recebera um incentivo da Fiocruz para participar do Aids e contar sua experiência de alguns anos de uso da PrEP – profilaxia pré-exposição – que consiste na tomada de uma medicação diária a fim de evitar a contaminação pelo HIV.

O relato é duro, sem traços de auto-piedade e sem clamor de compreensão. A rotina de violência sistemática sofrida por Bruna é exposta sem relativismos e sem o olhar ou interpretação de quem vê, mas não vivencia.

Bruna fez parte do estudo PrEP Brasil, realizado em duas cidades brasileiras, Rio de Janeiro e São Paulo, entre abril de 2014 e julho de 2016, com o total de 450 participantes (sendo que 375 permaneceram até o seu término), que preenchiam os seguintes critérios: sexo anal sem camisinha com dois ou mais parceiros; ou, dois ou mais episódios de sexo anal com parceiro sabidamente soropositivo para o HIV; ou, história de infecção sexualmente transmissível; todos ocorridos nos últimos doze meses do início do estudo. Nas 48 semanas de seguimento, 277 sujeitos (74% do total da amostra) alcançaram concentrações séricas adequadas da droga (tenofovir) com pelo menos 4 doses por semana. Os 2 indivíduos que contraíram o HIV durante o seguimento apresentavam concentrações indetectáveis da droga durante a soroconversão. E, na opinião dos estudiosos, o mais surpreendente: não houve evidência de aumento de mudança de comportamento sexual entre os participantes; interpretando-se, então, que não houve redução no uso da camisinha entre os participantes. Ou seja, a comunidade médica precisa entender que há uma parcela da população que necessita de outros métodos de prevenção, que está vulnerável a situações de violência sexual, ou que simplesmente quer ter o direito de decidir sobre o seu método de prevenção de escolha. É preciso sair da “bolha” ideológica, conhecer os estudos recentes e ouvir as populações vulneráveis, pois nós, profissionais da saúde, também somos responsáveis pelo descontrole desta epidemia.

Bruna contou que continuou recebendo a medicação após o término do estudo, que a toma diariamente, que sempre que é possível usa camisinha, e que quando é sexualmente violentada, ainda lhe resta algum poder sobre seu corpo: o poder da escolha de um método de prevenção que não depende do outro.

Ana Lúcia Didonet Moro
Médica infectologista do HNSC e HSL/PUCRS.

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