Desmatamento causa aumento da malária

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Pesquisadores da USP descobriram recentemente que o desmatamento da Amazônia é um dos principais causadores do aumento dos casos de malária no Brasil. E os dados são bem preocupantes: para cada quilômetro de mata desmatada, surgem quase 30 novos casos da doença.

ENTENDENDO O CENÁRIO

Apesar de ser uma doença evitável e curável, a malária continua afetando muitos países e matando muita gente. A África Subsaariana sozinha é responsável por 90% dos casos de malária e 92% das mortes pela doença.

A malária é uma doença muito antiga, transmitida aos humanos através da picada dos mosquitos Anopheles. Em geral, a água parada, o aumento da temperatura e da luz solar aumenta a proliferação da maioria das espécies que transmitem a malária. Isso já explica o motivo da doença estar associada às condições ambientais.

Pesquisadores estrangeiros já estabeleceram uma ligação entre a perda de florestas e a taxa de incidência da malária. A professora de sociologia Kelly Austin, da Universidade Lehigh, nos Estados Unidos, analisou dados sobre a cobertura florestal da Organização para Agricultura e Alimentação e as taxas de incidência de malária da Organização Mundial de Saúde. O resultado foi que, mesmo controlando outros fatores importantes, os países que sofrem mais perdas florestais tendem a ter taxas mais altas de malária.

A relação direta é que o desmatamento aumenta os casos de malária porque cria várias condições favoráveis ​​para o mosquito Anopheles.

DESMATAMENTO DA AMAZÔNIA

Vamos retomar a primeira informação desse texto. Cada quilômetro desmatado pode causar até 30 novos casos de malária. Agora vamos acrescentar mais uma informação: os níveis de desmatamento na Amazônia estão atingindo níveis históricos.

Entre agosto de 2017 e julho de 2018, cerca de 7.900 km2 foram destruídos na Amazônia. Isso equivale mais ou menos a cinco vezes o tamanho da cidade de Londres.

Os últimos dados do governo indicam que a maior parte do desmatamento ocorreu nos estados de Mato Grosso e Pará, e registrou um aumento de 13,7% em relação aos números do período anterior.

Vale lembrar que a região amazônica é a maior floresta tropical do mundo e abriga espécies de plantas e animais que ainda estão sendo descobertas por cientistas.

AMAZÔNIA E A MALÁRIA

Se para cada um quilômetro desmatado, temos 30 novos casos, então para quase 8 mil quilômetros desmatados no último ano…já temos uma explicação para o aumento dos casos de malária no Brasil, não é mesmo?
A pesquisa da USP levou em conta o período entre 2009 e 2015 e identificou que o impacto é maior quando o desmatamento acontece em extensões menores que cinco quilômetros quadrados (km²).

A professora Maria Anice Mureb Sallum, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, que supervisionou a pesquisa, explica que a proximidade de pessoas e animais dos domicílios nas comunidades rurais proporciona fontes de sangue aos mosquitos, ajudando no aumento da sua população. As migrações constantes das comunidades e a expansão da área de transmissão da malária dificulta o controle da doença.

Outro fator importante a ser considerado é a mineração na Amazônia venezuelana, que também faz crescer o desmatamento e a própria malária. A área de extração fica bem na divisa com o Brasil, onde mineiros independentes fazem o trabalho de forma artesanal e sem nenhuma proteção.

Desmatamento da área do minério somado à migração de trabalhadores para a região e a falta de medicamentos, só agravam ainda mais a situação. Atualmente a Venezuela é o país onde a malária mais cresce no mundo.

AUMENTO DA MALÁRIA NO BRASIL

Depois de quase 10 anos de constante evolução no controle da malária no Brasil, a doença voltou. Em 2015 o Ministério da Saúde lançou o Plano para a Eliminação da Malária no Brasil e em 2016 o país registrou o menor número de casos da doença em 37 anos: 129 mil.

Mas em 2017 os casos voltaram a subir e esse número não tem parado desde então. Os números registrados nesse período mostram o crescimento. No estado do Pará, por exemplo, observou-se um aumento de mais de 150%, passando de 14.495 casos em 2016 para 36.678 em 2017.

Além do desmatamento e de todas as causas já citadas acima, a falta de investimentos também ajuda a doença a se espalhar. Dados levantados pelo Jornal da USP indicam que passamos de 72 milhões de dólares de investimento no controle de malária em 2014 para pouco mais de 44 milhões de dólares em 2016, segundo dados publicados pela Organização Mundial da Saúde no final de 2017. O Programa Nacional de Controle da Malária perdeu recursos e os municípios amazônicos não dispõem dos meios financeiros e humanos exigidos para enfrentar a malária.

Casos confirmados de malária por 1000 habitantes.
World Malaria Report 2018. World Health Organization.

Marcia Breda
Jornalista e especialista em docência no ensino superior.

Leia mais:
https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/um-quilometro-quadrado-desmatado-na-amazonia-equivale-a-27-novos-casos-de-malaria/
http://recordtv.r7.com/fala-brasil/videos/desmatamento-da-amazonia-causa-avanco-da-malaria-no-brasil-diz-pesquisa-06102018
https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/01/1950328-mineracao-leva-violencia-e-malaria-a-venezuela.shtml
http://www.mma.gov.br/informma/item/15259-governo-federal-divulga-taxa-de-desmatamento-na-amaz%C3%B4nia.html
https://www.bbc.com/news/world-latin-america-46327634
https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/venezuela-registra-o-maior-aumento-de-casos-de-malaria-no-mundo-e-ameaca-brasil-1j5gpgtdys7zq1y5pgm465ouc/
https://jornal.usp.br/artigos/a-malaria-volta-a-assustar-o-brasil-o-que-a-universidade-tem-com-isso/
https://theconversation.com/deforestation-and-malaria-whats-the-relationship-between-the-two-78950

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