A pandemia e a chance de uma humanidade melhor

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Foto: Artur Moês - Coordcom/UFRJ

No ano 2019 a.c  (antes da Covid-19) éramos parte de uma sociedade que vinha em um processo de se tornar cada vez mais hedônica, superficial, individualista. Nossas relações e modo de ser no mundo se tornaram tão fugazes e superficiais que o sociólogo Zygmunt Bauman (1925 – 2015) a traduzia como líquida. Perfeita alegoria para ilustrar como na pós-modernidade vivemos numa abstração tal que tudo parece nos escapar pelos dedos, assim como a água, embora aparentemente estejamos tão interconectados como jamais o fomos.

Mas isto foi antes de 2020 d.c (depois da Covid-19). Hoje, estamos em um momento que pode ser mais um divisor de Eras. Em questão de dias, as principais referências das benesses da globalização e modernidade – como a capacidade de se deslocar de um continente a outro em poucas horas e ter livre acesso através de fronteiras como se elas não existissem – nos foram negadas. Para alguns, isto aconteceu literalmente de um dia para o outro e sem qualquer aviso prévio. Cidades foram fechadas, famílias separadas, hospitais lotados, gente morrendo. Assistíamos pela televisão, líamos nos jornais, comentávamos nos grupos de WhatsApp, mas ainda era algo distante daqui, muito longe… “aparentemente é coisa de quem tem hábitos alimentares excêntricos”.

No entanto, enquanto o Brasil ainda se restabelecia da folia do carnaval e estava finalmente pronto para começar o ano (agora vai!), recebemos a notícia de que nossa hora chegou! Não lhe parece que o poema José de Carlos Drummond de Andrade foi escrito para ser lido juntamente com a anúncio da chegada do coronavírus? Repare bem: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?”

Na psicologia, sabemos bem quão desestabilizador pode ser quando nossos pilares de segurança, ou seja, aquilo que julgávamos como estável, conhecido, dominável já não o é. A ansiedade gerada pelo desconhecido pode provocar a negação da realidade – nada a ver com a negação consciente e deliberada da verdade, que fique bem claro – como um mecanismo de defesa quando a pessoa ainda não tem condições de assimilar o que seus sentidos captam. No extremo das reações de ansiedade estão as psicossomatizações aterrorizantes como aquelas dos ataques de pânico.

Nem todos nós conseguimos conceber como a humanidade realiza proezas tecnológicas e se vê prostrada diante de um vírus. Diante disto, o que temos como uma das principais armas de defesa contra este inimigo invisível é o distanciamento físico.

A imposição do isolamento, contudo, tem sido rejeitada por muitos. Provavelmente não apenas pela nossa tendência normal a querer desafiar tudo que é proibido, mas porque certamente muitas pessoas agora se veem obrigadas a conviver consigo mesmas, encarar o vazio de suas vidas ou aquelas questões mal resolvidas que na correria cotidiana acabam ficando abafadas. Escondidas por uma agenda sempre lotada de compromissos, trabalho, faculdade, encontros com amigos, viagens, academia, levar o pet pra passear e tantas outras tarefas quanto caibam nas vinte e quatro horas do dia. Assim, neste isolamento imposto e necessário, se torna inevitável passar por um processo de autoconhecimento, solitude e confrontação. Nem todos suportam ter esta aproximação crua consigo mesmo.

Por outro lado, o contato e a interação com outras pessoas é tão essencial para os seres humanos que sua ausência nos primeiros meses de vida pode ocasionar problemas mentais persistentes, como nos contam os estudos do psicanalista René Spitz, nos quais verificou-se que bebês com longos períodos afastados de suas mães em instituições – hospitais ou orfanatos – apresentavam atraso no desenvolvimento físico e cognitivo, baixa imunidade, além de perturbações emocionais, como a apatia generalizada. A interação com o outro é tão essencial que não seria possível, por exemplo, sabermos quem somos se fôssemos privados deste contato.

Como consequência da pandemia, estima-se que aproximadamente um terço da terra está em confinamento. Embora já existam publicados alguns estudos investigando aspectos da saúde mental relacionados às epidemias, inclusive uns poucos especificamente sobre a Covid-19, ainda é cedo para avaliar a dimensão do que este isolamento em massa produzirá nos seres humanos. Obviamente, há de se considerar os aspectos culturais nessa equação, haja vista haver culturas mais individualistas e outras pautadas pelas ações coletivas.

Normalmente, em situações adversas, recomendamos buscar apoio e conforto nas pessoas que você ama; o que costuma envolver o toque e outras demonstrações de afeto físico. No entanto, o afastamento agora é sinônimo de cuidado.

E como costuma acontecer em momentos críticos, as pessoas afloram o melhor em si, mas também o que há de pior. Em minha experiência de psicóloga lidando com sofrimento humano, sendo alguns provocados por maldades atrozes difíceis de contar ou mesmo imaginar, eu vi que uma parcela destes “seres de dor”, conseguiam cultivar em si um “ser de vida”, ressignificaram suas dores de modo que não se permitiam ficar presos a elas. Eram capazes de transcender às injustiças sofridas reconhecendo que o mal passado virou parte de sua história, mas não cabe no presente. Seres de vida! Contudo, essa metamorfose não acontecia sem esforço, era mesmo um cultivo. Requer tempo, trabalho árduo e paciência.

É difícil prever por quanto tempo mais precisaremos manter distância física uns dos outros. Após isto é provável que certos hábitos antes corriqueiros e inofensivos – como cumprimentar com apertos de mão ou abraço e um, dois ou três beijinhos, a depender da tradição regional – sejam censurados ou proibidos e finalmente caiam em desuso. Quem hoje em dia manda telegrama? Que professor utiliza mimeógrafo? Existe bebê usando fraldas de pano?  Qual o homem que ainda assedia mulheres na rua? (ops, infelizmente este mau hábito persiste).

Quando o pior passar – sim, vai passar – a esperança é que esta pandemia ajude a criar na humanidade um inconsciente coletivo que promova o respeito cuidadoso e reverente a toda forma de vida.

Texto:

Renata Rodrigues Santos  (etno.psiconsult@gmail.com) 

Instagram: @intercultural.mente 

Renata é psicóloga e mestre em psicologia clínica e da saúde. Desde 2012 tem trabalhado no âmbito humanitário em situações de conflitos, epidemias, desastres e migração.