Adeus, aperto de mão?

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Foto:. Pixabay

Quando a pandemia de COVID-19 passar, o aperto de mão deve ser abolido de vez. Essa é a recomendação do consultor de saúde da Casa Branca, Anthony Fauci, o médico que assumiu o cargo em 1984, no auge da crise da AIDS. Um artigo da rede norte-americana revela que ele não é o único especialista a fazer a recomendação. O fato é que, muito provavelmente,  a crise atual irá remodelar as relações interpessoais de maneiras difíceis de imaginar.

Segundo Fauci, o costume de apertar a mão é desnecessário porque é uma das maneiras mais eficientes de transmitir doenças respiratórias. O especialista é apoiado por Gregory Poland, porta-voz da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, que diz que essa forma de cumprimentar as pessoas é antiquada e deveria ser substituída. Na mesma linha, o chefe de doenças infecciosas da Northwell Health em Nova Iorque defende que um aceno com a cabeça ou com as mãos deveria se tornar a nova norma.

A ausência de contato físico reduz drasticamente o risco de transmitir o SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID-19.  A doença se transmite de pessoa a pessoa através de gotículas produzidas a partir da tosse ou do espirro. Essas gotículas caem em objetos e superfícies ao redor da pessoa. Outras pessoas pegam a COVID-19 ao encostar  nesses objetos ou superfícies e depois tocando nos olhos, nariz ou boca. O toque nas interações sociais humanas é, portanto, um dos principais modos de transmissão do vírus. 

Semanas depois do início das medidas de distanciamento no Brasil, onde o toque é parte central do ritual social, muitas pessoas anseiam pelo retorno do contato físico. Associado ao distanciamento, as incertezas sobre o fim dessa crise e a perspectiva de notícias negativas impactam desfavoravelmente a nossa saúde mental.  

Por um lado, as relações interpessoais e seus rituais de toque, como o abraço, o beijo e o aperto de mão, poderiam reforçar nossa resiliência frente às adversidades, em circunstâncias normais. Por outro, não vivemos tempos comuns e esses mesmos gestos devem ser evitados como a melhor forma de enfrentar a pandemia, enquanto não surgem intervenções biomédicas mais efetivas, como tratamento e vacina. Esse repentino paradoxo não tem data para acabar e é possível que molde nossas relações sociais no mundo pós-COVID-19. 

Se recomendações tão drásticas quanto as de Fauci se tornarão o novo cotidiano, precisamos esperar. Por enquanto, não apertar mãos pode salvar vidas.

Texto:

Antonio Flores (antonio.flores@infecto.net)

Twitter: @Antoni0_Fl0res

Antonio é médico infectologista com experiência em HIV, tuberculose, hepatites virais e doenças tropicais negligenciadas, especialmente malária e leishmaniose. Já coordenou e implementou programas médicos em diversos países da África Subsaariana e no Brasil, em diversos contextos, incluindo migração e conflito.