Desigualdade de gênero e o HIV

Mulheres e minorias sociais vítimas de violência e discriminação são mais propensas a contrair o HIV

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Foto: Divulgação

O relatório Equal Measures 2030 apontou que nenhum país ainda alcançou a plena igualdade de gênero. Quais as consequências disso? O fenômeno social que gera impactos na vida trabalhista, social e familiar tem também repercussão negativa na saúde reprodutiva e sexual das mulheres. É o que mostra a série de artigos sobre Igualdade de Gênero, Normas e Saúde organizada pelo periódico Lancet. Segundo as pesquisas, as mulheres são mais suscetíveis a exposição a determinados vírus, entre eles o do HIV.

No cenário mundial, as mortes relacionadas à Aids são a principal causa de mortalidade em mulheres de 15 a 49 anos. Além disso, mulheres jovens (de 15 a 24 anos) têm duas vezes mais chances de se infectarem do que homens. Para se ter uma ideia, em 2017, 59% das ocorrências de novas infecções por HIV em adultos na África Subsaariana foram em mulheres acima de 15 anos. 

Um dos motivos para a alta taxa de incidência de infecções sexualmente transmissíveis no público feminino é a exigência de consentimento conjugal para acessar serviços de saúde sexual e reprodutiva. Ou seja, mulheres que não estão de acordo com as normas sociais de gênero e mantém relações sexuais antes do casamento podem enfrentar estigma e discriminação ao serem julgadas como promíscuas e impuras. Não por acaso, muitas delas relatam o sentimento de vergonha, culpabilização e o medo de julgamento por parte dos profissionais da saúde como barreiras ao acesso de serviços de saúde sexual. 

De acordo com a UNAIDS, outro fator a ser levado em consideração é a violência de gênero, que está intrinsecamente relacionada à relação sexual e reprodutiva das mulheres. Durante a vida, uma em cada três mulheres denunciam violência física ou sexual praticada por um parceiro ou por um não parceiro. Isso pode afetar diretamente em sua saúde sexual: mulheres que experimentam violência por parceiro íntimo têm menos probabilidade de usar preservativos, pois há maior dificuldade de negociar com o parceiro o uso do método preventivo. Além disso, é comum que essas mulheres encontrem dificuldades no acesso aos testes de HIV e à terapia com anti-retrovirais. Dados de um estudo sobre profilaxia pré-exposição (PrEP) mostraram que as mulheres que sofreram violência por parte de seus parceiros íntimos nos três meses anteriores à pesquisa tiveram 50% mais chances de ter baixa adesão ao tratamento. 

As minorias de gênero, por sua vez, como homens e mulheres transexuais, também enfrentam estigma e discriminação generalizados. As mulheres transexuais têm 49 vezes mais chances de viver com HIV do que a população em geral. Elas são também menos propensas a aderir à terapia, a alcançar carga viral indetectável e permanecer em tratamento. Identificar-se como transgênero, como mostra a Pesquisa de Estigma de Pessoas Vivendo com HIV realizada no Reino Unido em 2015, é um preditor de relatos de atrasos nos cuidados de saúde ou até mesmo a recusa deles.

Contudo, neste aspecto, não são só as mulheres e as minorias sociais que sofrem com as desigualdades de gênero. Apesar dos homens ocuparem posição privilegiada no sistema, as normas de gênero também prejudicam a sua saúde quando o assunto é o HIV. Isso porque os homens são menos propensos do que as mulheres a se envolverem com serviços de saúde e a ter conhecimento sobre a infecção por HIV. Além disso, a aceitação do teste e tratamento do vírus costuma ser menor nos homens do que nas mulheres. Apesar de uma prevalência mais alta de HIV em mulheres na África subsaariana, por exemplo, a parcela masculina tem maior probabilidade de morrer de doenças relacionadas ao HIV. Em 2017, na região, estimou-se que 30 mil homens morreram a mais do que mulheres por causa de doenças relacionadas ao vírus.

Os esforços para mudar o cenário ainda são poucos. No artigo For the HIV epidemic to end so must gender inequality os autores concluem que se fazem necessárias ações de cunho político e social para que o progresso na igualdade de gênero e na eliminação do HIV sejam notados. A falta de dados mais concretos sobre a relação do HIV, gêneros e minorias sociais faz com queos serviços de saúde não sejam aperfeiçoados de modo a atender as necessidades e especificidades de cada população. As leis que cercam a violência por parceiro íntimo, incluindo a falta de criminalização por estupro conjugal, devem ser reforçadas.

Os autores explicam ainda que, para desafiar estas normas de gênero profundamente enraizadas na sociedade, é preciso colaboração de todos: homens e mulheres. Programas como Dreams, Sasa! e SheConquers, que tem por objetivo capacitar as mulheres jovens a advogar por sua própria saúde sexual e reprodutiva, devem ser amplamente divulgados para permitir que outras pessoas se empoderem da questão. Os homens também podem estar envolvidos em iniciativas como Promundo, Sonke e ElesPorElas, que visam promover relações mais sadias e igualitárias entre os diferentes gêneros.

Texto: Tainara Liesenfeld