HIV/AIDS: o pior sintoma ainda é o preconceito

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Foto: Divulgação

Na década de 80, ter o diagnóstico positivo para o vírus do HIV era quase o mesmo que ter uma sentença de morte. Na época, não havia muitos estudos e pouco se sabia sobre a doença. Mesmo que, de lá para cá, testes diagnósticos tenham sido desenvolvidos e já exista um tratamento eficaz para a doença, o Unaids (Programa Conjunto da ONU para HIV/Aids) apontou que, de 2010 a 2018, o número de casos de infecções por HIV cresceu 21% no Brasil. Além disso, apesar de crônica e tratável, a doença ainda é permeada de tabus, estigma e discriminação.   

Desde 1996, o país é considerado referência mundial no tratamento da Aids, através da distribuição gratuita de medicamentos aos portadores de HIV pelo Sistema Único de Saúde. No entanto, o acesso aos serviços ainda tem muitas barreiras sociais, o que faz com que as populações mais vulneráveis não busquem o diagnóstico precoce e o tratamento adequado. Não por acaso, LGBTs e mulheres pobres estão entre os que mais morrem por complicações do HIV.

Dados do Boletim Epidemiológico de 2019, do Ministério da Saúde, mostram que 51,3% casos de homens infectados foram decorrentes de exposição homossexual ou bissexual e 31,4% heterossexual, e 2,0% se deram entre usuários de drogas injetáveis. No que diz respeito à cor e à raça, há uma queda de 22,2% na proporção de óbitos de pessoas brancas e crescimento de 22,5% na proporção de óbitos de pessoas negras, entre os anos de 2008 e 2018. Além disso, ao observar a série histórica desde 2009, os casos de Aids são mais prevalentes em mulheres negras (pretas e pardas), enquanto entre homens isso ocorre desde 2012. No ano de 2018, as proporções observadas foram de 54,8% e 58% entre homens e mulheres negras, respectivamente.

Tratam-se de populações–chave aquelas que muitas vezes se encontram submissas aos parceiros sexuais e alheias à informação sobre prevenção; e, quando já infectadas, encontram barreiras sociais para a busca de um tratamento adequado. A professora do curso de Enfermagem na Universidade Federal de Santa Maria, Stela Maris de Mello Padoin explica que ‘as pessoas têm vulnerabilidades individuais, sociais e programáticas para se aproximar ou se afastar da epidemia. Tem muito a ver com o que elas fazem com as informações que recebem, com a forma em que são atingidas pelas campanhas, pelas ações programáticas dos governos, do setor público, das ONG’s.’

O preconceito deve ser combatido

De acordo com o UNAIDS, pesquisas têm mostrado que o estigma e a discriminação prejudicam os esforços no enfrentamento a epidemia do HIV, pois fazem com que as pessoas tenham medo de procurar por informações, serviços e métodos que reduzam o risco de infecção e também de adotar comportamentos mais seguros, com medo da rejeição e da violência.

A enfermeira Martha Souza, professora nos cursos de Enfermagem, Medicina e do mestrado da Universidade Franciscana (UFN), de Santa Maria, se deparou com os primeiros casos de Aids no Paraná, em uma época em que a doença ainda causava receio até mesmo nos profissionais da saúde. Atuou como consultora do Ministério da Saúde, no consórcio intermunicipal, que abrangia 32 municípios da área central do Rio Grande do Sul e, posteriormente, na região norte do país, em Rondônia, atuando com populações vulneráveis. Marta promoveu uma série de capacitações e rodas de conversa com professores, profissionais de saúde, população LGBT, usuários de drogas, motoristas, militares, profissionais do sexo, mulheres e indígenas. Em anos de estudo e práticas pedagógicas sobre o HIV, ela até consegue vislumbrar uma possível cura para as consequências do vírus, mas relata que o maior dos problemas reside na maneira como as pessoas costumam julgar indivíduos infectadas.

Ninguém cometeu crime tendo relação sexual desprotegida. Todo mundo já fez isso algum dia.  Mas ninguém sai na rua anunciando que o teste deu positivo para o HIV, porque sabe que vai enfrentar uma série de dificuldades no trabalho, na escola, na faculdade. São ‘mortes sociais’ que a gente vai impondo para a pessoa diariamente, que podem levar à depressão, a momentos de tristeza que não precisariam mais estar acontecendo. A Aids permanece como a ‘doença do outro’, ‘o outro precisa mudar, eu não’. Talvez, algum dia, exista uma cura para a Aids, mas eu gostaria de pensar o mesmo sobre o preconceito.’’, lamenta Marta.

Sexo não deve ser tabu

Jonathan (que prefere não ser identificado pelo sobrenome), morador da cidade de São Paulo, teve o diagnóstico positivo para o HIV em março de 2019, através de exames rápidos em um posto de saúde. Como não possuía muitas informações sobre o vírus, ele conta ter ficado preocupado no início. No entanto, logo buscou o tratamento e, felizmente, não teve sintomas colaterais. Em todos os aplicativos e redes sociais, Jonathan prefere deixar explícito a sua condição e diz receber muito apoio. No entanto, reconhece que o preconceito ainda é sustentado pela maioria das pessoas, sendo consequência direta do baixo nível de interesse pessoal, da busca por informações confiáveis e da recorrente disseminação de boatos e notícias falsas. Hoje em dia existem muitas plataformas em que a pessoa pode saber mais sobre o assunto. Eu mesmo vejo vídeos de muitos youtubers que abordam o assunto de forma confiável. O que eu acho que é que falta interesse das pessoas em buscar a forma correta de saber sobre o assunto e acabam espalhando coisas que nem sabem.’’, afirma Jonathan.

Para a enfermeira, um dos principais motivos para a epidemia generalizada de Aids não é a falta de informações, mas sim a falta de espaços em que se possa falar sobre o assunto. Não podermos falar em sexo em todos os ambientes. É a falta de nos abrirem espaços para informar corretamente. Todo mundo sabe que o uso do preservativo é um dos grandes caminhos, por exemplo, mas para falar nisso é tão complexo. Temos uma cultura muito arraigada, em que o sexo é visto como tabu, algo proibido. Ainda existem pessoas que acreditam que falar sobre o assunto pode estimular a prática precoce. Não é verdade. Enquanto não conseguirmos falar abertamente sobre o tema, não conseguiremos fazer uma prevenção bem feita’’, afirma Marta.

Da mesma forma, Stela acredita que as campanhas de conscientização realizadas anualmente no mês de dezembro não são suficientes. Para ela é preciso trabalhar com isso todos os dias, em todos os lugares’’. O principal foco de seu trabalho atualmente é a adesão ao tratamento das pessoas infectadas e ela afirma que o papel do uso de preservativos foi assumido, aumentou muito como método de prevenção, mas não é único. Precisa-se trabalhar pensando na prevenção, no diagnóstico precoce, tratamento precoce e uma adesão ao tratamento de modo que as pessoas infectadas fiquem indetectáveis.’’, pontua a professora, inspirada no pacto mundial 90/90/90, estabelecido em 2014 pelo Unaids. O acordo prevê a identificação com diagnóstico precoce de 90% do percentual de infectados, do tratamento de 90% dessas pessoas que são identificadas com a sorologia positiva e que das 90% de pessoas tratadas com carga viral indetectável, já que a carga viral indetectável é igual a intransmissível.

Infelizmente ainda não foi encontrada a cura ou vacina, mas diminuir a quantidade de vírus no corpo, fazendo com que ele deixe de se reproduzir no organismo já é possível. Ainda assim, pessoas como Johnatan não perdem a fé: Acredito sim na cura, mas creio que ela não deverá chegar tão fácil e nem rápido a todos. Se existisse uma vacina de prevenção ao HIV que fosse possibilitada a todos, com certeza, diminuiria bastante os casos.’’ Enquanto isso não se torna uma realidade, Johnatan sugere que o governo e as instituições de saúde fortaleçam a distribuição de preservativos e lubrificantes gratuitos, a divulgação de informações sobre métodos de prevenção como a PrEP na mídia e o principal: a quebra do silêncio e do preconceito sobre o assunto.

Texto: Tainara Liesenfeld