Por que não estamos falando sobre a nova epidemia de HIV?

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Foto: Divulgação

Nos últimos 38 anos, o HIV foi descoberto, testes diagnósticos foram desenvolvidos e o tratamento revolucionou o prognóstico da infecção. A doença letal dos anos 80 tornou-se crônica e tratável nos anos 2010. Até mesmo países de baixos recursos estruturaram programas que levam tratamento às pessoas que vivem com HIV, um feito quase inconcebível há 20 anos.

No entanto, junto a esse sucesso vieram também complacência e invisibilização de pessoas. Aos vulneráveis da sociedade o acesso ao diagnóstico e ao tratamento ainda é minado por barreiras sociais, a retenção aos cuidados ainda está longe do ideal e, por isso, eles ainda ficam doentes e morrem. No Brasil, LGBTs e mulheres pobres, por exemplo, ainda se infectam mais e morrem mais. Segundo o último relatório do Programa Conjunto das  Nações Unidas sobre HIV/AIDS, o número de novos casos anuais no país subiu de 44 mil para 53 mil de 2010 a 2015. O mesmo relatório aponta que, no Brasil, 18% dos homens que fazem sexo com homens e 30% das mulheres trans vivem com HIV, enquanto a prevalência na população geral é de 0,5%. 

No Rio Grande do Sul, o HIV é responsável por uma em cada 12 mortes de pessoas entre 15 e 49 anos, e mulheres de 15 a 49 anos têm mais risco de morrer por complicações do HIV do que de câncer de mama, na contramão da tendência nacional, conforme mostram dados do Instituto de Avaliação e Métrica em Saúde (IHME, na sigla em inglês), da Universidade de Washington, que compila dados para o Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, o Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS, do Ministério da Saúde apontou que, em Porto Alegre, 20 a cada mil mulheres grávidas tiveram um teste positivo para o HIV entre julho de 2017 a junho de 2018. A taxa nacional foi três mulheres diagnosticadas a cada mil gestantes no mesmo período. Esse dado é alarmante porque indica que Porto Alegre já tem uma epidemia generalizada. Segundo o UNAIDS e a OMS, uma epidemia generalizada de HIV é definida pela transmissão heterossexual sustentada, indicada por taxa de prevalência maior que 1% entre gestantes em cuidados pré-natais. A característica de epidemias generalizadas é a extrema vulnerabilidade da população em risco em diversos aspectos – pobreza, acesso precário à educação (geral e sexual) e desequilíbrio de poder entre os gêneros são alguns deles.   

Fonte: Boletim Epidemiológico de HIV/AIDS, Ministério da Saúde, 2018

Em 2019, a epidemia ressurgente ainda não é amplamente reconhecida e está longe da discussão pública, embora os casos continuem a aumentar e a epidemia brasileira esteja longe de estar controlada. Temos hoje ferramentas para acabar com a transmissão do HIV bem como reduzir as mortes relacionadas. No entanto, não atingiremos esse objetivo sem reconhecer o problema atual, descrito nos números e nas histórias das pessoas afetadas direta ou indiretamente pelo vírus. É necessário reorientar as ações de saúde pública sob a ótica dos determinantes sociais de saúde. Nesse contexto, a resposta à epidemia de HIV é igualmente um fim em si mesmo e um marcador dos problemas urgentes que afligem a nossa sociedade. 

Texto:

Antonio Flores (antonio.flores@infecto.net)

Twitter: @Antoni0_Fl0res

Antonio é médico infectologista com experiência em HIV, tuberculose, hepatites virais e doenças tropicais negligenciadas, especialmente malária e leishmaniose. Já coordenou e implementou programas médicos em diversos países da África Subsaariana e no Brasil, em diversos contextos, incluindo migração e conflito.