PrEP na prevenção de ISTs

OMS orienta que os serviços sejam integrados e coordenados para reduzir as altas taxas de infecções sexualmente transmissíveis

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Foto: Divulgação

Todos os dias, surgem mais de 1 milhão de novos casos de quatro infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) curáveis ​​comuns (clamídia, gonorréia, sífilis e tricomoníase) entre pessoas de 15 a 49 anos.  Essas quatro ISTs também estão associadas a um aumento risco de adquirir e transmitir o HIV. Contudo, a maioria dos casos é assintomática e as pessoas podem não estar cientes de uma infecção antes da testagem.

Os dados apresentados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) evidenciam a necessidade de investimento em medidas preventivas. As pesquisas foram divulgadas pela OMS na 10ª Conferência Internacional da AIDS Society on HIV Science (IAS 2019) na Cidade do México e demonstraram que a implantação da profilaxia pré-exposição (PrEP) oferece uma oportunidade para reduzir a incidência de ISTs, desde que os programas de prevenção sejam melhor coordenados e integrados. 

De acordo com a OMS, a integração desses serviços apresenta desafios, mas também oferece uma oportunidade não apenas para induzir o progresso necessário no controle de ISTs, como também para ampliar e otimizar serviços de saúde sexual e reprodutiva para populações carentes e negligenciadas. Apesar de grande parte do debate ter se concentrado em homens gays de alta renda, as pesquisas apontam também que os maiores ganhos no controle de ISTs podem ser alcançados em países de baixa e média renda. Assim como a PrEP pode servir como ponto de entrada para serviços mais abrangentes de saúde sexual e reprodutiva – incluindo triagem e tratamento das ISTs -, as altas taxas de ISTs em pessoas que usam a PrEP podem servir de estímulo para a formulação de políticas e serviços públicos.

A PrEP tem se mostrado altamente eficaz na prevenção da aquisição do HIV e, em 2017, foi incluída na Lista de Medicamentos Essenciais, pela OMS. Em países de alta renda como Estados Unidos, Austrália e Reino Unido, a PrEP foi implementada em conjunto com os serviços de testagem e terapia antirretroviral (TARV) e contribuiu para redução na incidência de HIV entre homens que fazem sexo com homens (HSH). O mesmo não ocorre em países de baixa e média renda e em populações que não sejam HSH, por exemplo, mulheres e jovens. Isso porque, entre essas populações a PrEP está sendo introduzida e não atingiu os níveis de cobertura para resultar em impactos maiores.

Em contrapartida, é comum associar o aumento de ISTs como a sífilis e a gonorreia com o uso de PrEP. A revisão sistemática mais recente, conduzida na Universidade Monash na Austrália, mostrou que a prevalência de IST já era alta em pessoas que solicitaram a PrEP, com 24% apresentando clamídia, gonorréia e/ou sífilis. A incidência foi extremamente alta em pessoas que já estavam em tratamento: para clamídia, em comparação com uma incidência média global de 3%, foi de 21% nos usuários de PrEP. Os resultados foram  apenas um pouco menores em estudos envolvendo populações que não os homens que fazem sexo com homens (HSH) (um terço dos estudos) do que em estudos envolvendo HSH exclusivamente. 

Segundo Rosalind Coleman, especialista em PrEP, esses números evidenciam “uma necessidade não atendida de prevenção, diagnóstico e tratamento de ISTs”. A oferta de PrEP se mostra, portanto, como porta de entrada para o desenvolvimento de uma assistência médica mais completa e abrangente.  

Na Conferência, um dos motivos apontados para a dificuldade em integrar os serviços é a baixa prioridade que os governos costumam dar às ISTs. De acordo com a OMS, se fazem urgentes mudanças nas políticas e no financiamento para a efetivação de uma série de intervenções que abordem ISTs nos programas de PrEP. Algumas ações já podem surtir efeitos imediatos: preservativos e suprimentos de lubrificantes, serviços de notificação de parceiros e serviços culturalmente sensíveis para comunidades específicas. Outras intervenções, mais a longo prazo, começam a ser estudadas, como o desenvolvimento de novas vacinas e o monitoramento da resistência antimicrobiana.

Texto: Tainara Liesenfeld