Transar sem camisinha é desejo de morte?

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Foto: Pixabay

“Transei sem camisinha e entendo que isso é pulsão de morte. Vim aqui porque quero viver”. Assim começou minha conversa com um homem que veio até o serviço de saúde em busca de profilaxia pós-exposição (PEP, na sigla em inglês) para o HIV. A ansiedade dele vinha do fato de ter tido uma relação sexual na noite anterior. E se alguém se paralisa por ansiedade por ter feito sexo, devemos nos perguntar o que está errado nesse contexto. Afinal, ter uma vida sexual saudável – isto é, com prazer, com consentimento e livre de medos – nos dá dignidade e (acho de uma forma talvez ambiciosa) deveria ser um direito humano fundamental.

A morte como resultado da relação sem camisinha ainda habita fortemente o imaginário popular quando se fala de sexo. É uma ideia remanescente da década de 1980, do auge da crise da AIDS, quando viver com HIV era nada mais do que um pesadelo induzido pelas infinitas incertezas daquele momento. No entanto, a esta altura (estamos em 2020!), associar o sexo sem preservativo a perder a vida significa ignorar as quatro décadas de ciência e ativismo que transformaram a resposta à epidemia de HIV. É uma visão estigmatizante e contraproducente que precisa ser reorientada. 

Em primeiro lugar, é importante enfatizar: o sexo sem preservativo é uma variação normal da sexualidade humana. Ponto final. O preservativo, inicialmente concebido como método contraceptivo, se tornou ferramenta vital na prevenção do HIV. Vital porque é eficaz e era então a única opção viável. E ainda hoje, é o método mais completo de prevenção: previne gravidez, HIV e inúmeras outras infecções sexualmente transmissíveis. 

Porém, os métodos eficazes (geralmente a eficácia se mede em situações ideais) precisam encontrar as circunstâncias reais das pessoas a quem se destinam, isto é, precisam ser efetivos também. Para ser efetiva, a camisinha precisa estar disponível, precisa ser negociada na hora do sexo. No mundo ideal, ela está disponível sempre, todos a carregam no bolso, todos têm o mesmo poder de negociação e todos sentem prazer com ela. Na vida real, temos problemas de acesso e existem relações desequilibradas de poder durante o sexo. Além disso, algumas pessoas simplesmente perdem o prazer ao usar uma camisinha. Ou seja, se uma ferramenta não é possível, por quaisquer que sejam os motivos (e independente das nossas opiniões sobre esses motivos), ela deixa de ser uma opção realista. 

É imprescindível ter em mente que a camisinha, apesar de todas as características que a tornariam ideal (disponibilidade, custo, eficácia), não resolveu a epidemia de HIV nas quatro últimas décadas. Em contrapartida, o advento da profilaxia pré-exposição (PrEP), o tratamento como prevenção (indetectável=intransmissível) e a intensificação da testagem de HIV apresentaram impacto significativo em redução de incidência do vírus nos últimos dez anos, conforme mostram diversos estudos (veja abaixo). Um relatório recentemente publicado pelo Departamento de Saúde Pública da Inglaterra revelou queda de 71% nas novas infecções pelo HIV entre homens gays e bissexuais entre 2012 e 2018.

Quando cuidamos das pessoas e da saúde sexual, precisamos compreender a dinâmica, as emoções, as motivações e os comportamentos ‒ jamais prescrevê-los ou impô-los se realmente nos importamos em manter as pessoas fisica e mentalmente saudáveis. Quando alguém não usa preservativo e vem procurar a PEP, costumo perguntar qual o motivo: foi escolha? Foi dificuldade de negociar? Foi tesão maior e mais rápido que a decisão de pegar a camisinha? Uma conversa honesta é o ponto de partida para conversarmos sobre prevenção de HIV centrada na pessoa e na sua vida.  Precisamos, sobretudo, entender como o sexo e a sexualidade se organizam na vida da pessoa à nossa frente. 

Camisinha serve para quem consegue e quer. PrEP, PEP e indetectável=intransmissível são ferramentas adicionais que precisam ser oferecidas de forma ampla. Estamos em 2020 e já dispomos de múltiplas ferramentas de prevenção de HIV bem estudadas – precisamos agora difundi-las para promover saúde sexual plena, sem medos infundados, com menos ansiedade e com riscos controlados através de prevenção combinada. 

Texto:

Antonio Flores (antonio.flores@infecto.net)

Twitter: @Antoni0_Fl0res

Antonio é médico infectologista com experiência em HIV, tuberculose, hepatites virais e doenças tropicais negligenciadas, especialmente malária e leishmaniose. Já coordenou e implementou programas médicos em diversos países da África Subsaariana e no Brasil, em diversos contextos, incluindo migração e conflito.

Leia mais:

https://www.bbc.com/news/health-51122979 (em inglês)

http://www.aidsmap.com/news/dec-2019/hiv-incidence-starting-fall-hardest-hit-communities-south-africa (em inglês)

http://www.aidsmap.com/news/jun-2019/prep-reduces-hiv-infections-over-95-us-real-world-study (em inglês)

http://www.natap.org/2019/IDWeek/IDWeek_47.htm (em inglês)

https://www.eurosurveillance.org/upload/site-assets/imgs/Special_Issue_HIV-web.pdf (em inglês)

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