Um olhar sobre a redução do estigma

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Foto: Divulgação

Em novembro de 2019, a revista The Lancet publicou uma série que debate a questão do viver bem com HIV além da supressão da carga viral, e trouxe à tona essa discussão. O olhar direcionado à melhora da qualidade de vida das pessoas está diretamente relacionado ao sucesso clínico do acompanhamento, já que os cuidados no âmbito social são tão importantes quanto os cuidados de saúde.

Todos os dias, ao atender pessoas que vivem com HIV na rede pública, nos deparamos com algum tipo de sofrimento psíquico produzido pela condição de saúde, pela condição social, ou ainda por uma mistura das duas. 

O estudo Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS – Brasil, realizado pela primeira vez no país, mostrou que quase metade dos participantes foram diagnosticados com algum problema de saúde mental nos 12 meses anteriores à pesquisa. Além disso, o Brasil é um dos países com maiores níveis de desigualdade social do mundo. O último relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) mostrou que o 1% mais rico da população brasileira teve um crescimento de renda mais forte que a média da população, elevando essa desigualdade. 

Vulnerabilidades sociais podem acarretar dificuldades na manutenção do tratamento, com faltas às consultas médicas, irregularidades na retirada de medicações e não realização de exames de rotina. Esses são alguns exemplos bem comuns vistos cotidianamente.

Por esses motivos, as conversas produzidas durante esses atendimentos transcendem a questão biomédica. O envolvimento nesse contato pode ajudar a amenizar as dores psíquicas de quem convive com o HIV. Muitas pessoas sofrem assédio moral, exclusão social, violação de direitos e até mesmo agressão física.

A discriminação experimentada pelas pessoas que vivem com HIV independe de carga viral indetectável (que significa estar em tratamento regular e com o vírus controlado). Facilmente, nos apegamos à ideia de que esse parâmetro é o que mais importa para considerar que tudo vai bem. Entretanto, alcançar bem-estar e ter qualidade de vida são imprescindíveis para uma vida feliz. E isso significa viver livre de estigmas, livre para acessar os serviços de saúde, livre para manter trabalho e estudos, livre para exercer sua vida sexual plenamente..

Saber que a sociedade é carregada de preconceito, que ainda traz ideias ultrapassadas sobre HIV, inclusive utiliza o termo aidético, totalmente demodê e estigmatizante – que é pouco aberta ao diálogo, que anda com nível de empatia bastante baixo, faz com que nós  profissionais e ativistas estejamos sempre empenhados em intervir na redução do estigma associado ao HIV.

A sorofobia, como é chamado o preconceito e o medo associado ao status HIV positivo, precisa ser combatida diariamente, dando-se atenção aos pequenos atos no convívio cotidiano. Mas também, seria muito necessário que houvesse interesse por parte do poder público em investir em políticas (que tivessem de fato um grande alcance) destinadas ao combate da discriminação. Esse deveria ser o papel daqueles que governam, além da garantia ao acesso à saúde. 

Texto:

Laura Gastaud (laura.gastaud@infecto.net)

Laura é especialista em infectologia com subespecialização em infectologia hospitalar. Tem grande experiência também em tuberculose, infecções sexualmente transmissíveis, e no atendimento de pessoas em vulnerabilidade social.